Lembranças

No velório do meu pai, em 2002, observei as suas mãos. Nunca as tinha notado. Eram pequenas e bem-feitas. Eram bonitas.

Naquele dia estava enterrando muito mais do que o corpo do meu pai. Era muito mais do que um corpo: um ciclo na minha vida também era encerrado.

Todos nós temos nossa própria história. Alguns a escrevem. Outros apenas são coadjuvantes. Mas todos somos atores neste momento único chamado vida. É uma peça de uma única apresentação.

Naquele dia, muitas lembranças passaram na minha mente. Apenas 15 dias atrás eu tinha levado minha mãe à sepultura. Sempre aprendi a conviver com perdas. Todo o tipo de perda. Mas perda dos sonhos dói muito. Dói mais do que perder coisas. Arranca, despedaça, mutila.

Mas nas minhas lágrimas e na dor daquele enterro, algo valioso conquistei: o desejo de profundamente perceber e valorizar as coisas importantes da vida.

Às vezes nosso olhar está tão voltado para a expectativa de grandes realizações, que não observamos os pequenos detalhes do nosso cotidiano. E estas coisas tão desapercebidas e pequenas fazem ou não a diferença de uma vida feliz.

Na efemeridade da nossa existência, sigamos o único Caminho. Em Cristo encontramos não atalhos mas a certeza de chegarmos a bons portos.

A gratidão pelo dom da vida ao Deus Eterno é sabedoria. Apesar da sua maravilhosa e insondável grandeza, Ele contempla nossas fraquezas e se compadece de nós.

Haverá um dia em que iremos estar face a face com o Altíssimo. Lá não haverá mais dor, desajustes, tristezas, lágrimas. Estaremos livres do fardo do pecado, eternamente.

Sinto muitas saudades dos meus pais. Às vezes me pego ainda um menino aguardando ansiosamente a chegada do meu pai depois de três meses viajando pela Marinha Mercante. São lembranças.

O grande desafio é vencer e crescer apesar das muralhas em nossas vidas.

Em Deus podemos saltá-las.

Comentários

Anônimo disse…
Quando perdi vovó foi muito difícil para mim. Hoje já não consigo lembrarcom clareza de sua voz,seu sotaque italiano as vezes vem em flaxes no meu ouvido, seu rosto quase sem rugas com 87 anos era incrível mais preciso ver as fotos. Mas existe algo que eu não consigo esquecer, as mãos de vovó pequenas e magras extremamente carinhosas, não houve um dia que estive com ela que ela não me fizesse um carinho. Minha vozinha Constancia, uma heroína, lucida aos 87 anos, seu último conselho... nunca vou esquecê-la. Somos felizes e privilegiados por poder ter saudades, quantos não tem esse privilégio! Saudades... de quem amammos... e que um dia encontraremos!
Anônimo disse…
A saudade pela perda de alguém que amamos, diz da separação, do rompimento. Fala da dor que rasga a alma; expõe as profundezas da alma. É um sentimento solitário, "egoísta".
A presença ausente lembra-nos de nossa finitude.
O cristão, porém, é portador da promessa da eternidade; a convicção do Salto para a vida eterna.
Cristo Jesus é a sua fonte.